Provérbios Sobre o Vinho

 

vPara os que não gostam de vinho…que Deus lhe tire a água.

vO vinho, dinheiro e a bravura para sempre não dura.

vMulher bonita e vinho bom são os primeiros que te abandonam.

vPipa que canta é vazia.

vCada vinho faz a alegria se bebido em companhia.

vDo vinho e da mulher salva-se quem puder.

vO vinho e a mulher fazem a alegria do homem.

vO vinho e a mulher fazem o homem perder o juízo.

v  Mulher nova, vinho velho.

vFoge do mau vizinho e do excesso de vinho.

v  Mulher casada parreira vindimada.

v Na água vês o teu rosto, no vinho o coração dos outros.

v Não se come sem beber vinho, nem assinar sem ter lido.

v  Nenhuma Nação é alcoólatra onde o vinho é barato.

v    Ninguém se embebeda com o vinho de sua adega.

v    O homem faz o vinho e o vinho refaz o homem.

v    O vinho alegra o olho, limpa o dente e cura o ventre.

v    O vinho e as crianças falam a verdade.

v    O vinho faz bem ao homem, quando são as mulheres que o bebem.

v    O vinho tem de ser comido e não bebido.

v    Quando vinho desce as palavras sobem.

v    Quem não gosta de vinho não gosta de Deus.

v    Quem planta vinhas em mau lugar carrega a vindima nas costas.

v  Três coisas mudam o homem: a mulher, o estudo e o vinho.

v  A água faz bem, mas só daquela que o vinho contém.

v Alegrai-vos tropas que aí vai o vinho.

v  Antes da sopa molha-se a boca.

v  Ao teu amigo e vizinho o melhor pão e o melhor vinho.

v Cada pipa cheira o vinho que tem.

vBeba vinho e deixe a água ao moinho.

v" O vinho molha e tempera os espíritos e acalma as preocupações da mente…ele reaviva nossas alegrias e é o óleo para a chama da vida que se apaga. Se você bebe moderadamente em pequenos goles de cada vez, o vinho gotejará em seus pulmões como o mais doce orvalho. " Sócrates

 

Meu brasileiro preferido

 

Já tive diversas provas de que até a opinião dos mais entendidos em vinho é induzida por fatores como procedência, preço e indicação de pessoas influentes. Não por acaso, um incontável número de críticos sai acabrunhado de degustações às cegas por preterir grandes rótulos em nome de vinhos bem menos prestigiados. Tudo isso pra dizer que o vinho sobre o qual vou comentar, se ocultada a sua origem, causaria certo alvoroço. Às claras, a percepção sobre ele poderia não ser a mesma, por puro preconceito.

 


 

Pedindo por isenção, começo o texto sobre o brasileiro DMD Cabernet Sauvignon 2005, que carrega no rótulo o sobrenome de Irineo Dall’Agnol. Ele, gerente do laboratório de inovação enológica da Embrapa Uva e Vinho, e o enólogo uruguaio Alejando Cardozo estão à frente da reputada marca de espumantes Estrelas do Brasil. As borbulhas são sua real vocação e especialidade, e somente para safras especiais de tintos emprestam seu talento, como no caso de 2005.

 


 

No auge da maturação, os galhos que sustentam os cachos de uva são cortados, provocando uma forte desidratação dos bagos e a consequente concentração dos teores de açúcares, ácidos, sais e extratos. Esse processo se dá no próprio vinhedo e dura uma semana. O sucesso da experiência depende de sol e clima seco. Daí o nome DMD (Dupla Maturação Direcionada). No caso do Amarone, um clássico em se tratando de vinho à base de uvas passificadas, esse ressecamento acontece em ambiente fechado, controlado, e por meses. Vale ressaltar que as uvas são outras, que este DMD não passa por carvalho e que sua graduação alcóolica fica nos 13,5%, diferentemente dos Amarones italianos, que costumam partir dos 14% e têm o estágio em madeira como obrigatório. Portanto, nada de comparações injustas!

 


Para os entusiastas do vinho, o método inovador aplicado a este Cabernet Sauvignon por si só valeria a ida a Flores da Cunha, um distrito de Bento Gonçalves distante 140 km de Porto Alegre. A isso soma-se o lugar paradisíaco onde está sediado o show room de Estrelas do Brasil e a aula grátis sobre vitivinicultura, mercado e turismo dada pelo simpático Irineo.

 

Já de saída, e bastante entusiasmada com os três espumantes que havia provado, eis que Irineo menciona um produto seu que “lembra o Amarone”, disse ele, justo o meu vinho preferido. Na falta de uma garrafa resfriada, serviu a que tinha, na temperatura ambiente dos janeiros escaldantes, mesmo na Serra Gaúcha. O álcool saltou no nariz, mas não ao ponto de se sobrepor às potencialidades do vinho, motivo por que levei duas garrafas. Fui aconselhada a decantá-lo por pelo menos 10 horas, e tomar um gole a cada duas horas, para notar sua complexidade e mutações ao longo desse período.

 


 

Em casa, eu, que não sou boba, segui as instruções do enólogo. No nariz, o vinho me lembrou couro mesclado a um balsâmico sutil, sem nada de fruta. Cheirinho de italianos maduros, mal simplificando a coisa.  Uns 20 minutos depois, uma distante geleia de morango visitou minha taça.

 


 

Aromas vinham, desapareciam, e essa inconstância me deixava confusa e insegura quanto à análise que pretendia fazer.  

 


 

Mais adiante, notas delicadas e distantes de frutas secas. Não reconheci nada de Cabernet Sauvignon nele, talvez porque o processo de passificação tenha dado um novo caráter ao vinho. O DMD é persistente e devolve ao final do gole um leve amargor, como vindo de um tostado, apesar de não ter passagem por madeira. Pode?

 


 

A presença do álcool no nariz não foi embora mesmo com as 10 horas de decantação, e se intensificou no paladar com o risoto de funghi, bacon e calabresa com o qual harmonizei o DMD. Talvez por causa do sal de todos esses ingredientes juntos, somado ao do parmesão da finalização. Sal e taninos se odeiam! E confesso que, louca por pimenta que sou, talvez tenha exagerado. E aí, a boca pega fogo mesmo!

 


Resumindo, um Cabernet de corpo médio, elegante, que me lembra mais um Ripasso que um Amarone, e com uma acidez que o mantém em grande forma mesmo aos NOVE anos de idade! E por um valor de Casillero del Diablo no Pão de Açúcar!

Débora Portela . 19 de janeiro de 2016

Origem Histórica e Dispersão da Videira

Por Irineo Dall’Agnol


 A videira é anterior ao surgimento do homem (Santos,1983). O provável centro de origem paleontológico da videira é a Groenlândia. Lá encontram-se os fósseis mais antigos de plantas ancestrais da videira. Há 300 mil anos, durante a Era Cenozóica, no Período Terciário, surgiu a primeira espécie da videira. No final do Período Quaternário, devido à grande glaciação, esta extinguiu-se naquele local.


A partir da Groenlândia, as espécies ancestrais disseminaram-se para novas áreas e foram diferenciando-se em novas espécies. Hoje, considera-se a existência de três centros de origem da videira:


Eurásia: compreende a região do Cáucaso, entre a Armênia e a Pérsia. Daí difundiu-se pela Mesopotâmia antiga, Oriente Médio e costas do Mediterrâneo. É o centro do qual deriva a espécie mais cultivada no mundo, a Vitis Vinífera que se destaca pela qualidade de seus frutos e pela fineza dos seus vinhos. Na Grécia o início da viticultura é atestado por fósseis de bagas de uva do final da Era do Neolítico (3500-3000 a.C.), porém o uso do vinho neste local se deu muito mais tarde, cerca de 2000 a.C.


Ásia: nesta região que incluem Sibéria, China, Japão, Java e Coréia ocorrem 15 espécies de videiras, em geral pouco conhecidas e raramente utilizadas.


América: ocorrem cerca de 30 espécies de Vitis espontaneamente desde o Canadá até a América Central. Este centro é de grande importância pela sua riqueza de espécies e pela utilização das mesmas tanto para a produção de uvas e derivados, como para fornecer genes para o melhoramento genético.


A Vitis labrusca (Isabel, Concord) é a espécie mais cultivada no Rio Grande do Sul e se destaca pelo aroma “foxado” característico e pela obtenção de suco de uva de qualidade superior.


A dispersão da videira a.C. deu-se pelos etruscos, barbáros e fenícios. No período romano o interesse pela videira e sua cultura acentuou-se cada vez mais, e com isso se aperfeiçoaram as técnicas vitivinícolas. Graças ao Império Romano a vinha pode se difundir por todos os territórios conquistados, indo desde Portugal, França, Alemanha, Inglaterra até parte do norte da África.


No período medieval abateu-se uma forte crise política e socio-econômica, a qual afetou fortemente a agricultura em geral, especialmente a viticultura. Devido a grande importância que a videira e o vinho representavam para a religião cristã, onde era indispensável a presença do vinho na celebração da Santa Missa, despertou particular atenção do Clero e principalmente dos Mosteiros no cultivo da videira, tornando-os verdadeiros centros vitícolas.


No final da Idade Média, com o início das navegações, iniciou uma nova fase de expansão da viticultura. Cristóvão Colombo, em 1493 na sua viagem que resultaria no descobrimento da América trouxe bacelos de videiras às Antilhas, que mais tarde chegariam ao México e ao Perú.


Os missionários na  difusão do cristianismo levaram a videira praticamente a todos os pontos do continente americano.


No Brasil, a videira foi introduzida por Martim Afonso de Souza, em 1532, na Capitania de São Vicente (São Paulo). Em 1535 a videira foi introduzida na Bahia e Pernambuco. Em 1551, Brás Cubas produz o primeiro vinho em território brasileiro, no Planalto de Piratininga (São Paulo).


Em 1626 o jesuíta Roque Gonzáles de Santa Cruz, introduziu a videira no Rio Grande do Sul, quando da fundação da redução de São Nicolau. Uma nova introdução foi feita pelos açorianos e madeirenses em 1742. Em 1813, Manoel Macedo Brum produziu o primeiro vinho em solo Gaúcho, próximo a Rio Pardo.


Saint-Hilaire, em 1820, registrou presença de vinhedos na região de Porto Alegre. No ano de 1840 o Gaúcho José Marques Lisboa que se encontrava em Washington (E.U.A.), enviou os primeiros bacelos da cultivar Isabel ao comerciante Thomas Messiter em Rio Grande, onde estes foram plantados na Ilha dos Marinheiros e de lá a variedade se propagou em todo o Estado.


Com a chegada dos primeiros imigrantes italianos a Serra Gaúcha em 1875, trouxeram com eles bacelos de viníferas, os quais, não obtiveram sucesso no seu cultivo, devido ao ataque de doenças fúngicas. Não satisfeitos, foram até a região alemã de São Sebastião do Cai e substituíram suas Vitis vinifera pela Vitis labrusca (Isabel).


A partir de 1970, com a chegada de empresas multinacionais, houve um incremento significativo no plantio de videiras Vitis viniferas. Hoje a Serra Gaúcha é a maior região vitícola do país, com 30.373 hectares de vinhedos, sendo 80% da produção de uvas americanas (Vitis labrusca, Vitis bourquina) e híbridos, onde a Isabel é a cultivar de maior expressão. Segundo, dados da O.I.V. de 1999, a superfície mundial de vinhedos está em 7.864.000 hectares. Sendo, 68% na Europa; 20% na Ásia; 10% na América e 2% Oceânia.

Brasil na Taça: Harmonizando com Estrelas do Brasil

Um espumante Nature que, no nariz e na boca, lembra aqueles vinhos envelhecidos em barris e com leve toque de oxidação, tipo Jerez, alguns fortificados e brandies. Some-se a isso a austeridade dos espumantes “zero açúcar” e temos um vinho que pode ser definido como de difícil compreensão e que precisa de uma certa dose de boa vontade do bebedor.  
 
 


 

 

O Estrelas do Brasil Nature 2007 foi feito pelo método tradicional e leva Chardonnay, Pinot Noir, Riesling Itálico e Viognier. A perlage exemplarmente pequenininha se debateu loucamente na taça por mais de 10 minutos em meio ao líquido tão dourado quanto o de cerveja pilsen. No nariz ainda mel, nozes e manteiga. Na boca é um escândalo de confuso! O General teria recuado não fosse minha insistência no conceito “experiência”. Um detalhe importante é que eu gosto do Jerez Fino, ele não!

  

Mousse gorda, cremosa; acidez na medida; vinho compriiiido… Admitindo minha pouca experiência, diria que este é um espumante no mínimo especial e que seguramente recomendaria a um amigo. Mas diria a esse amigo que não se deixasse levar pelo o que está lendo e que não reclamasse por não sentir nada do que eu senti.

 

É bom mencionar que o pai da criança, Irineo Dall’Agnol, discorda do meu jeito de ver seu vinho. A percepção é pessoal, o vinho não é consensual e ele sabe disso. Muito elegantemente, o enólogo opinou que o que eu entendi por “fortificado” e “oxidado” ele leu como “casca de laranja cozida”. Explicou ainda que o vinho tem aromas terciários em profusão, que são fruto dos 60 meses que maturou sobre as leveduras.

 

 

 
 


 

 

 
 


  

Eu sabia que não seria um espumante fácil e por isso arrisquei harmonizá-lo com algo pesado para um vinho do gênero: um risoto de camarão com tudo o que dele é de direito: um poderoso e verdadeiro caldo de peixe, manteiga, parmesão e páprica picante. Finalizei com manjericão e tomatinho cereja. E não é que ficou bom! O espumante tinha a estrutura e acidez necessárias para segurar a untuosidade do prato.

 

Para deixar os leitores do BK ainda mais tentados, o Anuário Vinhos do Brasil 2013 deu ao Nature 2007 Champenoise de Estrelas do Brasil a melhor nota (91) dentre as 554 amostras de vinhos nacionais enviadas por 85 vinícolas.

 

 

Essa joiazinha custa 80 reais, e quem quiser “experienciá-la” terá de ligar para o Irineo e pagar pelo frete. Ou ir à Bento Gonçalves e buscá-la das mãos do autor, como eu fiz.

 

 

  
Débora Portela . 19 de janeiro de 2016

Sistema de condução devideiras na Serra Gaúcha vertical ou horizontal?

    Muito se tem dito, discutido e afirmado por técnicos, viticultores e cantineiros sobre qual  o melhor sistema de condução da videira  com o intuito de produzir uvas e vinho de qualidade. Discussão esta que deverá continuar por muito tempo.


    O Brasil é um país relativamente novo e seu crescimento e desenvolvimento muito se deve em função da introdução de tecnologias advindas de outros países, que são criadas e adaptadas às condições de origem. Na vitivinicultura da Serra Gaúcha não é diferente, e ainda se caracteriza por ser uma atividade que despertou interesse somente nas últimas décadas, tendo todo um futuro para desvendar. Onde, dúvidas e questionamentos são frequentes no momento de iniciar um empreendimento na área.


    A interação dos fatores clima, solo, videira e homem irão determinar e transmitir as características da uva e do vinho de uma região. Para uma melhor compreensão podemos subdividir o clima em três níveis: macroclima, mesoclima e microclima.


    Há milhões de anos atrás o solo e a topografia determinaram o macroclima da Serra Gaúcha e este não temos como alterá-lo. Já o mesoclima varia em função de variáveis como: altitude, declividade, exposição solar, ventos, evaporação distância de lagos e rios e etc. Sendo a região composta de vales e montanhas, podemos afirmar que em cada vinhedo poderá ter um ou mais tipos de mesoclima em função da sua localização na propriedade vitícola. O microclima é o clima dentro ou próximo da vegetação da videira e este é altamente afetado e ou modificado pelas decisões culturais do viticultor como: espaçamento entre plantas e linhas, escolha do sistema de condução, tipo de porta-enxerto utilizado, dos níveis de adubação e de poda seca ou verde praticados,  manejo do solo e do dossel vegetativo, controle de pragas e de doenças, enfim de todas as práticas agronômicas aplicadas antes, durante e após a instalação do vinhedo.


    Antes de qualquer ação o viticultor deverá avaliar, identificar e mapear os diferentes mesoclimas existentes na sua propriedade, o que permitirá a ele o arranjo das diferentes variedades de videiras  que melhor se adaptarão a cada situação.


    Devemos atentar sempre em buscar o equilibrio da videira com o ambiente e para isto conhecer o potencial do solo da área tornasse imprescindível. A interação do solo e o suprimento de água determina o potencial do lugar. Um potencial do solo pode ser alto, médio ou baixo. De uma maneira geral podemos classificá-lo em função da profundidade do solo que as raízes da videira podem explorar, sendo potencial alto profundidade maior que 1,0m; médio entre 1,0 a 0,5m e baixo menor que 0,5m de profundidade.


    Locais de alto potencial podemos antecipar que o vinhedo terá alto vigor. Neste caso deve-se pensar em variedades que mesmo com elevada produtividade conseguem manter uma qualidade satisfatória, optar por um sistema de condução mais elaborado para acomodar o vigor, espaçamentos mais amplos entre plantas e linhas, deixar maior carga de gemas por planta na ocasião da poda seca a fim de comprometer o vigor.


    Os locais da propriedade de alto potencial na Serra Gaúcha geralmente são áreas planas e se situam nas bases das encostas onde o teor de matéria orgânica é elevado, a disponibilidade de água é maior, recebem menos radiação solar e ocorre menor circulação de ar. Nesta situação recomenda-se cultivar variedades de videiras mais rústicas como as Vitis labruscas e sistemas de condução horizontal como o latada.


    Nas encostas das propriedades o potencial do solo geralmente é menor e estes locais drenam mais rapidamente, tem maior circulação de ar, menor teor de matéria orgânica, pouco profundos, e que na conjugação destes fatores transmitem menor vigor ao vinhedo. Nesta situação o espaçamento entre plantas e linhas pode ser menor e o sistema de condução menos complexo. Devemos priorizar estas áreas para o cultivo de Vitis viníferas, na qual as condições favorecem para que a videira expresse ao máximo seu potencial enológico.


     Identificados os diferentes  mesoclimas da propriedade o viticultor será dicisivo na  formação do microclima da videira. Todas as suas decisões agronômicas irão afetar diretamente ou indiretamente o sucesso de seu investimento. A escolha do sistema de condução deve fazer parte deste processo amenizando os efeitos negativos do macroclima da região e mesoclima do vinhedo para compor o microclima da videira.


     Afirmar que o sistema de condução A ou B é responsável pela qualidade final da uva e do vinho na Serra Gaúcha não é verdadeiro. O somatório de fatores já mencionados e a interação entre eles com a intervenção do homem irá determinar a qualidade final.


     É inegável que a introdução de tecnologias prontas de outros países em primeiro momento acelera o crescimento, contudo, devemos nos livrar de preconceitos e olhar mais para o nosso umbigo e acreditar que o brasileiro é criativo, temos nossas características e podemos adaptar  e criar produtos e tecnologias iguais ou superiores as existentes em outras regiões vitivinícolas do mundo.


 


Irineo Dall’Agnol


Lic. Ciências Agrárias


Enólogo e Vitivinicultor

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Guerra das Estrelas

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O vinho espumante se tornou um assunto efervescente por aqui. Há poucos dias, Steven Spurrier esteve no Brasil para comandar a degustação comentada do Panorama dos Espumantes do Hemisfério Sul. E lá pelas tantas disse que quem produz espumantes como os brasileiros, não precisa de champanhe. Ainda que qualquer pessoa deva ser prudente em suas opiniões, está claro que o elogio rasgado de Spurrier para nossos espumantes não deve ser levado ao pé da letra. Espumantes, ou estrelas engarrafadas, são feitos para celebrar a vida. E a guerra que se instalou não fez sentido.

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A declaração de Spurrier gerou celeuma. Alguns colocaram em dúvida sua reputação por causa dela  (Veja quem é o crítico no final desse texto). Mas, no fim das contas, acho que ele está certo: qualquer um pode ser feliz bebendo os ótimos espumantes brasileiros. Ainda que champanhe seja especial (mas nem todas tanto assim), é muito caro. Ainda mais no Brasil. E, para confirmar o que Spurrier disse, publico abaixo uma rápida entrevista que fiz com o crítico português Rui Falcão, que vem sempre ao Brasil, a convite da Vinhos de Portugal, para dar palestras sobre os vinhos da Terrinha, conhecedor profundo que é do assunto. Falcão também viajou muito pelo Sul do país, onde encontrou vinhedos quase que desconhecidos da grande maioria. E foi através dele, Falcão, que tomei conhecimento de uma vinícola que produz um dos melhores espumantes brasileiros, Estrelas do Brasil, e que não estava no evento comandado por Spurrier. Pois deveria. Assim como os de Adolfo Lona.

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Como tem sido sua experiência no Brasil?
É muito gratificante. Queremos ensinar sobre o vinho português, que faz vinhos completamente diferentes do resto  do mundo. E o resultado tem sido bom, refletindo-se nas vendas.

Nesse tempo, teve oportunidade de conhecer melhor as vinícolas brasileiras?
Sim, claro, quem gosta de vinhos procura conhecer outras regiões e seus vinhos. Durante muito tempo tem-se falado dos vinhos brasileiros. O país faz bons brancos e espumantes francamente bons. Tintos, menos. O Brasil é um  país com condições de fazer espumantes muito bons.

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Um deles poderia ser Estrelas do Brasil, que conheci por meio de uma matéria que escreveu para um jornal de Portugal? Até visitei a vinícola.
Com certeza. Conheci a Estrelas do Brasil, do Irineo Dal'Agnol e do Alejandro Cardozo. Quando degustei o espumante, vi que era completamente diferente de tudo o que já tinha bebido! O curioso é que, de início, não gostei. Mas com ele na taça, fui gostando cada vez mais. Parece que ele tem alguns defeitos, como se tivesse muita coisa  errada no seu processo. Mas a soma desses erros deu um espumante muito bom. Estranho, não? Por isso, fiz questão de conhecê-los quando estive na Serra Gaúcha, junto com o Nuno Pires. São pessoas de trato muito fácil e começamos uma relação de amizade.

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Que outras vinícolas destacaria entre as que fazem bons espumantes?
Outro que conheci, e que considero entre os grandes do mundo, é o Adolfo Lona, sobretudo o seu champenoise, o Orus. Há outros grandes também, como a Valduga, a Miolo, a Cave Geisse e o (Luiz Zanini) que fazem espumantes a um custo benefício muito bom.

É verdade que o espumante do Adolfo Lona já lhe trouxe problemas?
Não exatamente um problema. Mas há pouco tempo, um jornal em Portugal me pediu para citar os cinco vinhos que mais havia gostado em 2013. Citei três de Portugal, um da Austrália e o espumante Orus, do Adolfo Lona.  Teve gente que me ligou e falou "cara, cê tá louco?" A todos, eu respondia: "Provem!". Os que provaram reconheceram que eu estava certo.

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O que deveria mudar em relação à produção de espumantes no  Brasil?
Um é o excesso de  açúcar em alguns vinhos. O que é estranho também é a insistência no método charmat. O charmat é mais barato e mais rápido. Mas o produto final é sempre igual, quase um  refrigerante.

PS: Steven  Spurrier é editor da revista Decanter. Em 1976, ajudou a quebrar os paradigmas existentes sobre os vinhos do velho e do novo mundos. O famoso Julgamento de Paris colocou frente a frente, em degustação às cegas, grandes ícones da França e novatos californianos. Deu Califórnia na cabeça. A partir disso, o mundo do vinho, especialmente no Novo Mundo, ganhou um impulso e, graças a ele, esses vinhos, inclusive os brasileiros, ganharam em respeitabilidade.

Tiago Bulla

 Confraria Bom Vin Recebe Magnífica Degustação de Espumantes e Vinhos da Estrelas do Brasil

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 Estimados amigos, na noite desta segunda-feira tivemos em Porto Alegre mais um encontro da Confraria Bom Vin – um grupo bacana de amigos que se reúnem uma ou duas vezes por mês para apreciar bons vinhos e trocar idéias. Pessoalmente, como redator deste modesto blog, fico lisonjeado e honrado de fazer parte deste grupo tão seleto e tão bem capacitado. São jornalistas, blogueiros, críticos e formadores de opinião aqui da região de Porto Alegre. Fazer parte deste time têm sido uma ótima experiência, de muito aprendizado. Aqui no blog aproveito para contar um pouquinho  sobre o que rola em nossas (ótimas) degustações.

 

Pois bem, o encontro de ontem à noite foi para lá de especial: os enólogos Alejandro Cardozo e Irineo Dall Agnol – proprietários da Estrelas do Brasil – aceitaram nosso convite e nos deram a honra de apreciar seus excelentes espumantes – e vinhos também. Pessoalmente, já tive a oportunidade de conhecer a vinícola em outra grata oportunidade (relembre); por sinal, um dos lugares mais belos e fascinantes da serra gaúcha – talvez, de todo o RS. Quem for visitar, não se arrependerá, posso lhes garantir.

 

A degustação contou com quase todos os rótulos da vinícola. Começamos bem, com um de meus favoritos: o Riesling Itálico de fermentação única – processo pioneiro no Brasil. Um brut elaborado como se fosse um Asti. Perfeitamente aromático, leve, agradabilíssimo. Em breve estará aqui no blog – aguardem.

 

Depois passamos para os famosos espumantes elaborados pelo método Champenoise. Ao todo, provamos quatro: o Brut 2007,  o Nature, o Nature Rosé (100% Pinot Noir) e por fim o Brut 2006 – o produto de maior complexidade aromática e gustativa da vinícola. Afirmar qual foi o melhor seria uma grande injustiça: todos são produtos de altíssimo nível e qualidade muito acima da média. E com impressionante diferença de estilos: o Brut 2006, por exemplo, bem mais estruturado e encorpado que o Nature, já mais delicado, fresco e cítrico. Todos muito bem feitos, grastronômicos e isentos de defeitos.

 

Tivemos ainda a grata oportunidade de experimentar dois tintos com a assinatura do enólogo Irineo Dall Agnol: o DMD (Dupla Maturação Direcionada) e o Superiore (na foto). Este último, para mim, foi a grande surpresa da noite e arrancou inúmeros comentários positivos de todos os confrades. Um assemblage de quatro castas da histórica safra de 2008: Tannat, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot com 24 meses de passagem por carvalho e somente mil garrafas produzidas. Uma das mais gratas experiências que tive com vinhos neste ano de 2013. Possivelmente, um dos melhores tintos nacionais que já provei – daqueles de fazer a gente se encher de orgulho. A quem puder experimentar, recomendo fortemente. Quanto ao DMD, ainda tenho minha garrafa, cuidadosamente guardada. Me aguardem 🙂

 

Como se tudo ainda não fosse bom o bastante, os amigos Irineo e Alejandro nos brindaram com dois novos produtos, ainda em fase de maturação. Um deles, inclusive, está sendo elaborado com fermentação em garrafa com fechamento em rolha de cortiça. Como sempre, a vinícola inova e busca novidades dignas de empolgar qualquer enófilo, incrementando cada vez mais a qualidade de seus produtos. Vamos aguardar o lançamento, ansiosos.

 

Saúde a todos!

 

Espumante Estrelas do Brasil Brut Rosé Pinot Noir  por Tiago Bulla

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Estimados amigos, transcrevo hoje aqui no blog o post que escrevi  para o respeitado blog Vivendo Vinhos de meu amigo Cristiano Orlandi. A idéia é atender a uma causa nobre: publicar uma sugestão de um vinho no seu já conhecido guia “Montando a Adega”. O tema escolhido  deste ano foi “Que vinho você abriria para um amigo que ficou algum tempo sem beber e por que?”
 É curioso eu estar escrevendo este post já que este ano, em função de alguns probleminhas de saúde, eu acabei ficando forçosamente algumas boas e longas semanas sem beber nenhum vinho. E depois deste longo período achei que eu era merecedor  daquela que considero a mais perfeita das bebidas – o espumante. Afinal, quem me conhece sabe que minha sugestão não poderia ser outra, não é mesmo?
Pois bem, este é um dos espumantes mais bem comentados da jovem produtora Estrelas do Brasil, um vitorioso projeto dos enólogos Irineo Dall’Agnol e Alejandro Cardozo focado na produção de espumantes de alta qualidade e com longo tempo de maturação e guarda (alguns superior a 6 anos). Este rótulo especialmente é um rose (bem ao meu estilo), 100% Pinot Noir da safra 2009,  elaborado pelo Método Tradicional com o uso de leveduras encapsuladas ficando em contato por 24 meses em maturação. Vamos ao líquido!
Em taça, uma bonita cor salmão claro alaranjado, com perlage muito fino, intenso e barulhento. Aromas com muita complexidade, denotando notas cítricas de pitanga e tangerina, além dos aromas da fermantação como pão e notas amanteigadas. Em boca é um espumante harmônico e muito agradável. Excelente cremosidade aliada a um elegante frescor confirmando a percepção cítrica e acidez do nariz. Final bastante seco, com boa duração em boca remetendo à lembrança do mousse. Sem defeitos.
Creio que é um belo espumante para o tema proposto pelo “Montando a Adega”: para quem ficou muito tempo sem beber, não vai decepcionar (com toda a certeza). É elegante, agradável e com bom potencial gastronômico. Um Brut de mão cheia e repleto de predicados positivos. E convenhamos: um espumante sempre é uma ótima opção não é mesmo?
Em tempo: o preço também é bastante convidativo. A caixa com 6 unidades custa 210 reais no site da vinícola. Em Porto Alegre é possível encontrar o espumante por 40 reais nas lojas do ramo. Relação custo-benefício acima da média, com certeza.
 Saúde a todos!

PAPO DE VINHO

A Jornalista Débora Portela visitou a Estrelas do Brasil, na Serra Gaúcha.

Eu não fui a Estrelas do Brasil por acaso. Seus vinhos não estão nas prateleiras de nenhum supermercado, a marca não é conhecida, eles não investem em publicidade, e encontrar sua sede sem GPS não é tarefa fácil. Não fossem as placas indicando o caminho para a Dal Pizzol, eu jamais teria chegado.
Estive na Serra Gaúcha agora em janeiro para conhecer pequenos produtores e seus vinhos exclusivos. Minha fonte de informação foi a internet, mais especificamente os blogs que falam sobre vinho. Vinícolas que não são potenciais anunciantes parece não interessar à mídia especializada.

Determinante na decisão de conhecer a Estrelas foi o relato de Rui Falcão, um jornalista português, craque em vinho e dono de um texto que me mata de inveja. Disse ele: "… uma pequeníssima vinícola que junta um enólogo brasileiro com um uruguaio e que produz alguns dos vinhos espumantes mais loucos do mundo. Numa primeira aproximação poderá até criar um sentimento de rejeição pela excentricidade e pela profusão de desequilíbrios, mas poucos minutos depois o entusiasmo vai crescendo e a soma de desequilíbrios acaba por se transformar em harmonia e sofisticação".

Como não se empolgar? Mas a melhor descrição da experiência que tive, li no blog do Didu Russo: "Engarrafando a Paisagem", frase atribuída por ele ao jornalista Luiz Horta, outro grande regente de palavras. Nenhuma foto ou depoimento, entretanto, pode traduzir a sensação de beber uma taça de espumante à beira do inspirador Vale Aurora. E é óbvio que minha avaliação sobre os vinhos que provei está impregnada de tudo o que os cercam e que pude observar. Há uma história por trás das garrafas, existem ideais e valores que não consigo dissociar do produto final. Eu gosto da ideia de que o vinho é algo além do líquido.

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Irineo Dall'Agnol respondeu ao email que escrevi somente dez dias depois, disposto a me receber no final daquela tarde de segunda-feira. Já tinha perdido as esperanças. Ele, formado em Ciências Agrárias, supervisiona desde 1989 o laboratório de Inovação Enológica da Embrapa Uva e Vinho. Em 2005 se uniu ao amigo uruguaio Alejandro Cardozo, consultor de diversas vinícolas e enólogo responsável da Piagentini, para fazer os vinhos com o qual sonha beber e experimentar técnicas inovadoras de produção.
Irineo é brasileiro, mas é óbvia sua ascendência italiana. Fala alto, muito, rápido, e com as mãos. Mais do que apaixonado pela profissão, ele parece bastante grato pela chance de trabalhar com vinhos e de viver no alto daquela colina onde fixou as bases de Estrelas do Brasil. Numa de suas frases em fast deixou escapar que aquele lugar deveria ser tombado pelo poder público.
Mas ele tem um plano. Não apenas para sua propriedade e sua marca, mas para toda a região. "Só o turismo pode salvar os pequenos produtores de vinho", profetiza ele, que já arregaçou as mangas.

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Ergueu uma casa de pedra ao estilo do Vêneto onde vai funcionar um restaurante e espaço para eventos. Também está em construção uma adega subterrânea.

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Uma pousadinha integra o projeto. Tudo, segundo ele, sem descaracterizar a paisagem e respeitando o meio ambiente.
Enquanto seu pequeno pólo turístico vai sendo erguido, ele continua recebendo em sua casa os enófilos atraídos pela fama que Estrelas do Brasil tem no "submundo" do vinho.
Começamos os trabalhos com o Riesling Itálico Brut 2013. Espumante clarinho, super leve, fresco, com notas de pêssego e cítricas, fermentado apenas uma vez, como o espumante moscatel. O processo é interrompido aos 8 gramas de açúcar residual, o que o coloca na categoria dos Brut. Acho que quando falam de um vinho para beber despretensiosamente, conversando com amigos, ou mesmo num churrasco, penso que seria esse. Substituto chique para a pilsen de milho, mas com moderação, porque o danado tem 12% de álcool. "É para o brasileiro iniciante em espumante", sugere Irineo. E por 25 reais!
A coisa ficou mais séria na sequência, quando nos foi servido um espumante  Nature Rosé Champagnoise 2007. Enquanto meu nariz pescava uma pitanguinha, o enólogo falava em "bosque úmido e névoa de catarata". Legal! Ainda não sei entender nem me expressar sobre certos conceitos abstratos, mas definiria este espumante como denso, cremoso, gordo, persistente, e ainda assim elegante e delicado, com um leve amargor final. Os taninos que percebi creditaria às cascas da Pinot. O Irineo disse que eles foram presentes da barrica na qual o vinho base descansou antes de virar borbulha. Contei no relógio, a perlage fininha demorou uns 10 minutos para deixar de vez a taça.
Quer fazer o seu? Anote a receita: misture Pinot Noir, Riesling Itálico, Viognier e Chardonnay, sendo que a rainha das uvas brancas deve repousar em carvalho por um aninho. Depois, deixe o espumante maturando por 60 meses sobre as leveduras, dentro da garrafa. Custa 80 reais.

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Por fim, o espumante que mais me surpreendeu. Um blend das mesmas uvas do Nature Rosé, mas este um Brut Champagnoise do ano 2007, com 24 meses de maturação. Cor de pilsen checa, douradíssima, além de aromas e boca que me lembraram os de um vinho fortificado. Na mesma taça, notas de nozes e mel. Muito interessante! O enólogo garantiu que depois de disperso todo o gás, o espumante vira um "baita vinho" tranquilo. Um "dois em um" que vale 60 reais.
Voltando ao Rui Falcão, em seu texto ele diz que Irineo "é um produtor quase de garagem e que se orgulha de produzir vinhos alternativos e profundamente excêntricos". E eu me pergunto: se a grande vocação do Brasil é para os espumantes, por que a maioria dos produtores se contenta em fazer mais do mesmo, em perseguir fórmulas prontas e consagradas? Por que não buscam imprimir em seus vinhos um sotaque brasileiro, para que, talvez, no futuro, nosso espumante seja reconhecido como uma marca, uma referência, assim como Champagne, Cava ou Franciacorta?

Mas aí imagino que muitas famílias da Serra Gaúcha dependam do vinho para sobreviver. Não podem ser dar ao luxo de desprezar uma safra órfã do clima ideal. E esse vinho tem de agradar a maioria dos paladares. E aí, faz-se o que precisa ser feito.
Eu acho que o grande trunfo do Irineo é justamente a liberdade de não viver do vinho que faz, fato que lhe dá coragem para correr riscos na busca do vinho em que acredita.
Sorte nossa!   

Débora Portela é jornalista, com passagens por Jornal Lance!, Rádio Jovem Pan, TV Bandeirantes, Rede TV, TV Cultura e Rádio Internacional da China. É apaixonada por vinhos e por isso, recentemente, concluiu o curso de Sommelier pelo Senac-SP.

FONTE: http://www.papodevinho.com/search/label/D%C3%A9bora%20Portela

“Um dos Vinhos mais Loucos do Mundo”

 

" … O produtor Estrelas do Brasil, uma pequeníssima vinícola que junta um enólogo brasileiro com um uruguaio e que produz alguns dos vinhos espumantes mais loucos do mundo. Numa primeira aproximação poderá até criar um sentimento de rejeição pela excentricidade e pela profusão de desequilíbrios, mas poucos minutos depois o entusiasmo vai crescendo e a soma de desequilíbrios acaba por se transformar em harmonia e sofisticação. Aventure-se nos Estrelas dos Brasil Nature e Nature rosé, dois vinhos espumantes tão invulgares que serão capazes de alimentar a conversa durante um serão inteiro. E ainda há quem diga que não vale a pena perder tempo com os vinhos brasileiros…"

 

Espumantes brasileiros – por Rui Falcão 

As notícias que chegam da terrinha, nome popular e afectuoso pelo qual Portugal é carinhosamente conhecido no Brasil, continuam a apresentar-se alarmantes e de mau prenúncio, repletas de profecias de desgraças presentes e de reveses anunciados para um futuro próximo. A esperança é rara ou inexistente e poucos são os que acreditam na tão comentada mas sempre adiada recuperação económica e anímica. O futuro assoma sombrio, envolto em sombras e desconsiderações, enquanto a descrença se instala de forma indelével no espírito dos portugueses.

A conjuntura presente, entre a descida irreal do preço final do vinho e a contracção severa do mercado nacional, acarreta a necessidade absoluta de exportar, de conquistar novos mercados, de alargar horizontes e investir esforços nas economias mais consistentes e com sinais mais ou menos claros de pujança actual e futura. Entre elas, entre os países mais acessíveis e de aposta mais intuitiva para os produtores de vinhos nacionais, encontra-se o Brasil, aquele que é já o nosso quarto maior mercado e onde as relações pessoais e comerciais conseguem ser mais fáceis.

Não se pense que o Brasil representa uma encarnação contemporânea da “árvore das patacas”, um eldorado que resolve de uma só vez os problemas que afligem os produtores portugueses. O Brasil é um mercado difícil e pulverizado em muitos estados, cada um com uma regulamentação autónoma, um país que convive com impostos muito elevados e com uma fiscalidade de compreensão quase impossível. É um mercado gigante, competitivo e aberto onde concorrem produtores provenientes de todos os países produtores do mundo.

Mas é igualmente um país onde os vinhos portugueses têm logo à partida boa aceitação e onde a língua, a história e a afinidade cultural jogam a nosso favor. Por ora o consumo de vinho é muito baixo, o mais baixo de todo o hemisfério ocidental, com um consumo per capita que nem sequer atinge os dois litros por habitante, valores pouco fidedignos, empolados e desvirtuados pelo consumo de vinho de uva americana… e que na realidade expõem um consumo efectivo de cerca de um litro de vinho por habitante. Um valor que dada a pequenez do valor actual só pode aumentar… e que, face aos duzentos milhões de habitantes, cada vez que aumenta reflecte um incremento de muitos milhões de litros de vinho!

Ao contrário de outros mercados internacionais onde o nome Portugal é desconhecido ou sofre de uma conotação negativa, no Brasil não temos de envidar esforços desmesurados para mostrar o país e não temos de gastar recursos infinitos para apagar eventuais más imagens do passado. A par de outros mercados igualmente prioritários, o Brasil deverá ser uma das grandes apostas dos produtores nacionais. Não para escoar vinhos de qualidade duvidosa ou para inundar o mercado com preços muito baixos, solucionando pontualmente os problemas de tesouraria de alguns produtores, mas sim apostando numa distribuição eficaz que avance para além do eterno eixo São Paulo/Rio de Janeiro, as duas cidades onde a maioria dos produtores nacionais concentra a atenção.

Do que poucos se recordam, ou sequer se apercebem, é que o Brasil é igualmente um país produtor, um país onde o vinho é muito mais que uma colecção de rótulos importados. O grosso da produção concentra-se no estado do Rio Grande do Sul, em terra Gaúcha, no extremo sul do país, apesar de a Serra Catarinense, no estado de Santa Catarina, também no sul do Brasil, comece a conquistar um lugar ao sol beneficiando da presença das vinhas em altitude. Uma imensa maioria de portugueses, de resto tal como certamente uma imensa maioria de europeus, diverte-se com a simples ideia de experimentar um vinho brasileiro, desdenhando-os logo à partida, na maioria das vezes sem nunca os ter provado. A maioria zomba da sua qualidade, recusando-se sequer a considerar a possibilidade de o Brasil poder elaborar vinhos de qualidade.

Para ser justo, e salvo as raras e devidas excepções, a maioria dos vinhos brancos e tintos brasileiros são de qualidade mediana ou inferior, raramente cativando ou impressionando pela qualidade e/ou originalidade. O mesmo não se passa com os vinhos espumantes, categoria onde os produtores brasileiros conseguem tirar partido do clima difícil de Bento Gonçalves… onde as maturações nem sempre são fáceis. No mundo dos vinhos espumantes o Brasil dá cartas conseguindo apresentar alguns rótulos de qualidade muito elevada, vinhos que apresentados em prova cega seriam capazes de impressionar e cativar enófilos de qualquer parte do mundo.

Dos muitos vinhos espumantes brasileiros provados, e foram mesmo muitos, destaco três vinícolas que não teria dificuldade em situar entre os grandes produtores de vinhos espumantes do mundo produzidos fora da região francesa de Champagne. São eles os espumantes produzidos por Cave Geisse, Maximo Boschi e Estrelas do Brasil, o último dos quais é um produtor quase de garagem que se orgulha de produzir vinhos alternativos e profundamente excêntricos.

Cave Geisse é o mais conhecido dos três, um produtor enólogo de origem chilena que se mudou para o Brasil como consultor da Chandon e que mais tarde acabou por criar uma empresa própria de vinhos espumantes. Um dos rótulos que mais emociona é o Cave Geisse Blanc de Blancs, elaborado unicamente com a casta Chardonnay, um espumante elegante e profundamente “champanhês” no estilo. A reter igualmente o Cave Geisse Blanc de Noirs e o austero Cave Geisse Terroir Nature. Maximo Boschi apresenta-se num estilo ligeiramente mais oxidado e profundamente clássico no perfil, destacando-se essencialmente pelo rótulo Maximo Boschi Brut Speciale, um espumante que em prova cega poderia ser facilmente confundido com um vinho da região de Champagne.

Por fim o produtor Estrelas do Brasil, uma pequeníssima vinícola que junta um enólogo brasileiro com um uruguaio e que produz alguns dos vinhos espumantes mais loucos do mundo. Numa primeira aproximação poderá até criar um sentimento de rejeição pela excentricidade e pela profusão de desequilíbrios, mas poucos minutos depois o entusiasmo vai crescendo e a soma de desequilíbrios acaba por se transformar em harmonia e sofisticação. Aventure-se nos Estrelas dos Brasil Nature e Nature rosé, dois vinhos espumantes tão invulgares que serão capazes de alimentar a conversa durante um serão inteiro. E ainda há quem diga que não vale a pena perder tempo com os vinhos brasileiros…

Texto publicado originalmente no suplemento Fugas do jornal Público em 18 de Maio de 2013

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